terça-feira, 1 de junho de 2010
A boneca
Foi assim que a garotinha ficou vidrada na vitrine da loja de brinquedos do bairro, logo que terminou de ler o cartaz. Estava interessada naquela proposta, pois tinha mesmo uma velha boneca esquecida dentro do armário de seu quarto, meio empoeirada, com aquele cheiro característico das coisas que ficam algum tempo dentro de um armário. Seus olhos brilharam.
Chegando em casa, largou a mochila com o material escolar em cima da mesa da cozinha e foi logo pedindo à mãe:
- A gente pode trocar minha boneca, mãe? Aquela, lembra, que eu não brinco mais! Tem uma promoção na lojinha da rua da escola que eles tão dando desconto pra você comprar uma boneca nova, eu posso, eu posso? Deixa, mãe...
E a mãe, relutante, assentiu. Lá foram as duas com a pobre boneca, que, agora, era apenas parte do valor a se pagar por uma outra. Nenhum brinquedo se sentiria feliz assim.
- Filha, você vai trocar a sua boneca, mas por qual?
A garotinha se esquecera do principal. Qual boneca escolher... havia tantas! Prateleiras e prateleiras cheias delas; bonecas jorrando e formando cascatas sobre todas as paredes. O que eu faço, mãe?
- Fala pro vendedor ali como é a boneca que você quer, que ele vai te ajudar a achar - aconselhou a mãe, divertindo-se com a indecisão da filha.
Ela seguiu seu conselho. Foi falar com o rapaz que usava o crachá da loja.
- Moço, eu quero trocar minha boneca velha por uma nova.
Surpreso com a atitude da garotinha que, do alto de seus nove anos, olhava-o com impaciência, o vendedor respondeu:
- Que bom, então você veio ao lugar certo! Qual é a boneca que você quer? Já viu com a mamãe aquelas ali em cima? - e apontou para os últimos modelos de bonecas de pano que haviam chegado.
- Eu vi, mas não quero bem assim...
- Como você quer? É só falar que eu procuro lá no estoque e te trago.
Ela refletiu por alguns instantes.
- Eu queria uma boneca com um vestidinho claro, daquelas que falam coisas legais quando você aperta a mão delas e que não fosse nem muito grande, nem muito pequena, e que fosse fofinha de abraçar pra eu dormir - enumerou a exigente garotinha.
O vendedor, rindo consigo mesmo, inclinou-se na direção da boneca-moeda e apertou sua mão direita. Esta, muito alegre, respondeu:
- Boa noite! Tenha bons sonhos!
Ele disse à garotinha, ainda com um sorriso brincalhão:
-Mas olha pra sua boneca... ela é todinha como você queria.
Como num passe de mágica, uma boneca de algodão, muito macia, com um vestido claro salpicado de estrelas apareceu diante dos olhos incrédulos daquela criança. Ao reparar que não era truque algum - sua boneca era, de fato, assim - ela agradeceu ao vendedor meio sem jeito. Chamou pela mãe. E, assim, lá ia a garotinha segurando sua velha boneca nova pela mão.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
A dor latente
Algumas vezes, estranhamente, me sinto assim, estranha. É, talvez, o medo que precede o fim de um ciclo. E, talvez, o medo de não saber o que virá de novo...
terça-feira, 6 de abril de 2010
Que belo estranho dia pra se ter alegria
Lembraremos de como se joga pôquer, buraco, dominó, xadrez, banco imobiliário. Lembraremos o que é almoçar em casa e, entre uma garfada e outra, olhar o calendário pendurado na parede e constatar, abobalhados, que é uma terça-feira e que deveríamos estar em qualquer outro lugar a essa hora, menos em casa. E, mesmo assim, daremos graças a Deus por estarmos em casa, se estivermos.
Hoje, teremos que lidar com a difícil necessidade de se ter humildade, de deixar nosso bairrismo estúpido de lado e admitir nossas falhas como cidadãos e como cidade. E deveremos tentar - pelo menos tentar - não culpar o prefeito, ou o governador, ou o presidente por isso, porque não foram eles que projetaram, pavimentaram, sujaram as ruas e entupiram os bueiros de nossa cidade. Tampouco foram eles que fizeram chover tanto.
Hoje é o dia de olhar para o relógio e pensar que se está atrasado, e perceber, depois de pensar só um pouco, que hoje não teremos hora pra nada, porque hoje será o feriado municipal do tempo. Hoje veremos os jornalistas noticiarem o que aconteceu com eles próprios, e eles transparecerão o desespero e a incredulidade como nunca antes puderam, porque a notícia nunca havia acontecido com eles antes - se aconteceu, não lembramos de como era.
Em resumo, hoje é o dia em que muitos de nós perceberão que, quando o mundo está acabando, quase sempre dá pra encontrar uma pequena ilha, um pedaço de terra elevado, seguro e seco, onde poderemos nos abrigar da correnteza lá fora.
"Belo Estranho Dia de Amanhã" - música cantada por Roberta Sá que inspirou esse texto e esse dia tão... cheio :P
Notícias perderão todo o controle dos fatos
Celebridades cairão no anonimato
Palavras deformadas
Fotos desfocadas, vão atravessar o atlântico
Jornais sairão em branco
E as telas planas de plasma vão se dissolver
O argumento ficou sem assunto.Vai ter mais tempo pra gente ficar junto
Vai ter mais tempo pra enlouquecer com você
Vai ter mais tempo pra gente ficar junto
Vai ter mais tempo pra enlouquecer...Os políticos amanhecerão sem voz
O outdoor com as letras trocadas
Dentro do banco central o pessoal vai esquecer
Como é que assina a própria assinatura
E os taxistas já não sabem que rua pegar
Que belo estranho dia pra se ter alegria
E eu respondo e perguntoÉ só o tempo pra gente ficar junto
É só o tempo de eu enlouquecer com você
É só o tempo pra gente ficar junto
É só o tempo de eu enlouquecer...Alarmes já pararam de apitar
O telefone celular descarregou
O aeroporto tá sem teto
E a moça da tv prevê silêncios emais temporaisnuvens
A firma que eu trabalho faliu
E o governo decretou feriado amanhãno Riono Brasil
Será que é pedir muito?É só um jeito da gente ficar junto
É só um jeito da gente ficar junto
É só um jeito de eu enlouquecer com você
É só um jeito da gente ficar junto
É só um jeito de eu enlouquecer...
É só um jeito de eu enlouquecer com você
É só um jeito da gente ficar junto
É só um jeito de eu enlouquecer...